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A Loja Capitular


Resumo Histórico
 
          O Supremo Conselho do Brasil para o Rito Escocês Antigo e Aceito foi fundado no Estado do Rio de Janeiro em 12 de Novembro de 1832. Seu fundador nasceu em Salvador em 23 de Março de 1794 sendo seu nome de batismo, Francisco Gomes Brandão. Foi Senador do Império, Ministro de Estado e Visconde de Jequitinhonha, tendo mudado seu nome para Francisco Gê Acaiaba de Montezuma. Foi diplomado em direito por Coimbra, foi deputado à Constituinte de 1823, tendo sido deportado junto com José Bonifácio depois do fechamento da Constituinte. Tornou-se maçom na Europa e retornou do exílio em 1831.

          A fundação do Supremo Conselho do Brasil, em 12 de Novembro de 1832 foi autorizada por uma patente fornecida pelo Supremo Conselho dos Países Baixos (hoje, a Bélgica), quando se encontrava exilado na Europa, para onde fora após a queda dos Andradas, em 1823. Ele se encontrava na Europa de onde só retornou após a abdicação do Imperador Dom Pedro I, em 7 de Abril de 1831.

          Francisco Gê Acaiaba Montezuma (1794-1870), assumiria a partir de 1851 o cargo de Senador do Império tendo sido radical defensor pela imediata abolição da escravatura. Permaneceu como 1º Soberano Grande Comendador, desde a inauguração até o dia 12 de Novembro de 1835, quando passou o cargo para o 2º ocupante, que foi Antonio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva. Montezuma foi um idealista que transformou a construção do Supremo Conselho em Jurisdição Litúrgica do mais importante e difundido Rito Maçônico no Brasil, como corpo filosófico de mais alto nível no contexto maçônico.

          O trabalho dos seguidores de Montezuma que permaneceram aliados ao Grande Oriente do Brasil, em especial nos últimos 30 anos, foi de primar pela probidade, pelo estudo, pela concessão de graus mediante rigorosas regras escocesas e pela expansão ordenada das Lojas de Perfeição, Sublimes Capítulos Roza Cruz, Conselhos Filosóficos de Kadosh e Consistórios de Príncipes de Real Segredo, em todos os recantos do país. O Supremo Conselho de Montezuma está solidamente organizado e possui um extenso patrimônio situado no Estado do Rio de Janeiro possuindo em toda extensão territorial do país cerca de 900 câmaras filosóficas em pleno funcionamento.



O Grande Oriente do Brasil e o Supremo Conselho do Brasil para o REAA


O Grande Oriente do Brasil, Potência Simbólica, fundada em 17 de Junho de 1822, cujo atual Soberano Grão-Mestre Geral é o Ir.·. Laelso Rodrigues, com sede em Brasília, na Av. W-5-SGAS 913 - Módulos 60/61, mantém desde a fundação do Supremo Conselho do Brasil para o REAA reconhecimento mútuo, contínuo e constante, sendo que em 1854 houve a total fusão das duas obediências quando era Soberano Grande Comendador o Duque de Caxias (Patrono do Exército Brasileiro).

Essa fusão só seria desfeita em 1951, quando, pela Constituição do Grande Oriente do Brasil aprovada nesse ano, as duas Obediências tornaram-se independentes uma da outra, originando o atual "Tratado de Amizade e Aliança", de mútuo reconhecimento e que, continua em vigor até hoje, pelo qual, o Supremo Conselho do Brasil para o REAA reconhece o Grande Oriente do Brasil como única Potência Regular, legítima e soberana no Brasil, para os três graus simbólicos.

Por seu lado o Grande Oriente do Brasil reconhece o Supremo Conselho do Brasil para o REAA, como única Potência Regular, legal, legítima, soberana e Chefe do Rito, com exclusiva autoridade e jurisdição no Brasil. O Grande Oriente do Brasil tem 1906 Lojas Simbólicas em todo o território brasileiro, com 105.743 membros ativos e regulares, dos quais mais de 80% são do REAA.


Os Graus Maçônicos no REAA


INTRODUÇÃO

Após ter sido iniciado nos mistérios dos graus simbólicos, o maçom adquire a possibilidade de passar a estudar a filosofia presente nos graus ditos filosóficos. A maiororia dos autores afirmam o quanto é escasso o material escrito a respeito dos Altos Graus, ficando o Ir.·. restrito aos ensinamentos dos Rituais, os quais, nem sempre oferecem um estudo que se possa adjetivar como completo.

Assim sendo, pretendemos aqui esboçar ao Ir.·., tendo como guia o autor Nicola Aslan, em seu "Instruções Para Lojas de Perfeição", uma pequena síntese do que sejam os Graus Maçônicos, em especial os Graus Filosóficos.

GRAUS MAÇÔNICOS


Se nos perguntássemos : Qual a razão de ser dos Graus Maçônicos ? Qual seria a resposta ?

Tal questionamento está inserido em um dos Capítulos da obra supra citada, e nos passa como resposta o que passamos a sintetizar:

Se tomarmos como premissa que a Maçonaria é uma ciência, assim como a definem os anglo-saxônicos, certamente diremos que se trata de uma "ciência complexa, vasta, difícil, e que abrange todas as ciências que constituem o fundo comum das religiões, das artes e da filosofia de todos os povos do mundo, desde os tempos mais primitivos". Esta afirmação de Nicola Aslan nos dá a profundidade da dimensão do estudo necessário para se compreender os mistérios maçônicos.

Logo, um dos principais objetivos da Maçonaria é o estudo, através da pesquisa da Verdade, no afã de possibilitar a continuidade da instituição, sendo que, segundo o autor, as atividades sociais, filantrópicas, administrativas, litúrgicas, e outras são instrumentos utilizados pela Maçonaria para motivar e vitalizar as Lojas.

A Maçonaria adota um método iniciático de ensino de suas doutrinas, calcado na interpretação de símbolos, os quais intuitivamente, vão permeando pelo desenvolvimento auto-didático e pessoal do maçom, na medida em que não se dispõem de organizações metódicas de estudo e de instrução em conjunto, fazendo com que os impulsos de cada indivíduo leve-o ao conhecimento necessário para a busca da iluminação interior.

Logo, o método de ensino iniciático necessita ser conhecido através de vários degraus, os Graus Maçônicos, que levarão o iniciado a transformar-se em "cidadão consciente, disciplinado e cumpridor de seus deveres, pedra polida para ser utilizada na construção do Templo Ideal da Humanidade".

Se um dos principais objetivos da Maçonaria é o estudo utilizando-se de um ensino iniciático que progride a cada grau, podemos afirmar que o objetivo dos graus filosóficos é fazer com que o Ir.·. vá adquirindo "passo a passo", para utilizar uma linguagem cotidiana, uma classe iniciática onde se encontram partes da doutrina maçônica. Vale lembrar que o conteúdo filosófico de cada grau "veiculam muitas vezes opiniões e preconceitos vigentes na época em que foram redigidos, mas posteriormente modificados por descobertas científicas, por acontecimentos políticos ou outros fatores de transformação e de progresso". 

Visto isto, perguntamos então :

Qual o conteúdo dos graus filosóficos do R.·.E.·.A.·.A.·., sua nomenclatura e divisão ?

Afirma o autor, em seu trabalho do qual estamos extraindo esta síntese, que existem numerosos sistemas de Altos Graus, "todos eles denominados escocistas, mas, na presente obra, examinaremos apenas o R.·.E.·.A.·.A.·., por ser o mais difundido no Brasil e por ser o mais espalhado em quase todos os países, formando assim uma cadeia de união universal, através dos seus Supremos Conselhos.

Os graus deste sistema de Supremos Conselhos são agrupados em séries, e cada série possui uma finalidade ou um objetivo, que deverão ser atingidos através da iniciação."

Lembremo-nos que os graus simbólicos, Aprendiz e Companheiro , são de origem operativa e estão diretamente ligados aos ensinamentos da moral e ao desbaste da Pedra Bruta, utilizando-se das ferramentas associadas às virtudes e qualidades necessárias à transformação que levarão o ser imperfeito à Pedra Polida. Já o grau de Mestre é essencialmente "iniciático e esotérico, e contém todas as doutrinas que serão, posteriormente, objeto das instruções dos graus superiores."

Recebem o título de graus universais por serem comuns a todos os Ritos. Porém, nos seus Altos Graus, cada Rito tem a sua própria nomenclatura.

Passemos à nomenclatura dos Altos Graus do R.·.E.·.A.·.A.·., onde é conveniente falarmos da divisão relacionada ao ensinamento e à concessão, pela Loja, dos diversos graus do R.·.E.·.A.·.A.·., os quais são relacionados como segue :


TIPO DE LOJA
TIPOS DE GRAUS
GRAUS CONCEDIDOS
LOJA SIMBÓLICA
GRAUS SIMBÓLICOS
1º , 2º E 3º
LOJA DE PERFEIÇÃO
GRAUS INEFÁVEIS
4º AO 14º
LOJA CAPITULAR
GRAUS CAPITULARES
15º AO 18º
CONSELHO KADOSH
GRAUS FILOSÓFICOS
19º AO 30º
CONSISTÓRIO
GRAUS ADMINISTRATIVOS
31º E 32º
SUPREMO CONSELHO
GRAU ADMINISTRATIVO
33º



A nomenclatura dos Altos Graus do R.·.E.·.A.·.A.·., bem como algumas considerações sobre o seu significado é a que segue abaixo :

GRAUS INEFÁVEIS CONCEDIDOS PELAS LOJAS DE PERFEIÇÃO
GRAUNOMENCLATURABREVES CONSIDERAÇÕES
Mestre SecretoGrau de meditação; os verdadeiros segredos da Maçonaria devem ser objeto de pesquisas;
Mestre PerfeitoGrau de meditação; estudar a filosofia da natureza e a solução da quadratura do círculo filosófico;
Secretário ÍntimoO Grau é baseado na idéia de aprendizagem do comando, e sua moral resume-se no respeito que devemos Ter aos segredos alheios;
Preboste e Juiz( ou Mestre Irlandês)É consagrado à equidade severa com a qual devemos julgar nossas ações;
Intendente dos Edifícios (ou Mestre em Israel)A liberdade é o único traço de união entre o trabalho e a propriedade;
Mestre Eleito dos NoveGrau de Iluminação . Consagra-se ao zelo virtuoso e ao talento esclarecido que, por bons exemplos e generosos esforços, vingam a verdade e a virtude do erro e do vício;
10ºIlustre Eleito dos QuinzeConsagrado à extinção de todas as paixões e de todas as tendências censuráveis;
11ºSublime Cavaleiro EleitoConsagrado à regeneração dos costumes, às ciências e às artes;
12ºGrão Mestre ArquitetoRepresenta-se o povo e consagra-se à coragem perseverante
13ºReal ArcoDestinado a interpretação dos primeiros instituidores da Ordem;
14ºGrande Eleito, ou Perfeito e Sublime MaçomConsagrado ao Grande Arquiteto do Universo;

GRAUS CAPITULARES CONCEDIDOS PELOS CAPÍTULOS ROSA-CRUZ
GRAUNOMENCLATURABREVES CONSIDERAÇÕES
15ºCavaleiro do OrienteEsse Grau aborda o momento histórico do fim do exílio dos hebreus na Babilônia;
16ºPríncipe de JerusalémO Grau é consagrado ao retorno à Terra Santa;
17ºCavaleiro do Oriente e do OcidenteGrau consagrado aos cruzados;
18ºCavaleiro Rosa-CruzEsse grau celebra o advento de Cristo;

GRAUS FILOSÓFICOS CONCEDIDOS POR UM CONSELHO KADOSH
GRAUNOMENCLATURA
19ºGrande Pontífice ou Sublime Escocês, dito da Jerusalém Celeste
20ºSoberano Príncipe da Maçonaria ou Mestre ad-vitam
21ºNoaquita ou Cavaleiro Prussiano
22ºCavaleiro do Real Machado ou Príncipe do Líbano
23ºChefe do Tabernáculo
24ºPríncipe do Tabernáculo
25ºCavaleiro da Serpente de Bronze
26ºPríncipe de Merci ou Escocês Trinitário
27ºGrande Comendador do Templo ou Soberano Comendador do Templo de Jerusalém
28ºCavaleiro do Sol ou Príncipe Adepto
29ºGrande Cavaleiro Escocês de Santo André ou Patriarca dos Cruzados
30º
Grande Inquisitor ou Cavaleiro Kadosh ou Cavaleiro da Águia Branca e Negra

GRAUS ADMINISTRATIVOS CONCEDIDOS PELO CONSISTÓRIO
GRAUNOMENCLATURA
31ºGrande Inspetor , Inquisitor Comendador
32ºSublime Príncipe do Real Segredo

ÚLTIMO GRAU ADMINISTRATIVO CONCEDIDO PELO SUPREMO CONSELHO
GRAUNOMENCLATURA
33ºSoberano Grande Inspetor Geral

FONTE: "Instruções para Lojas de Perfeição"; Nicola Aslan; Ed. "A TROLHA"; Ano de Publicação: 1994; 1ª Edição.
Supremo Conselho do Brasil para o Rito Escocês Antigo e Aceito - Templos Escoceses, Museu, Pinacoteca e Biblioteca; Autor Cláudio Roque Buono Ferreira; Ano de Publicação 2000; Editora Copy Show - São Paulo-Brasil.









Hiram Abif


O MITO, O RITO E SUAS INTERPRETAÇÕES

Irmão Ricardo Mário Gonçalves
Em primeiro lugar, algumas noções a respeito do que é o mito e como trabalhar com ele e como interpretá-lo. Nós estamos acostumados a usar na nossa linguagem cotidiana mito como sinônimo de uma narrativa mentirosa, fantasiosa, alguma coisa assim sem fundamento.

Entretanto, para sociedades tradicionais o mito, muito pelo contrário, era percebido como uma narrativa exemplar, uma narrativa sagrada que esclarecia o homem sobre o seu lugar no mundo, e lhe fornecia ideais e modelos de comportamento.

A nossa Ordem, a Maçonaria, ela é herdeira dessas sociedades tradicionais do passado e como essas sociedades ela tem um mito fundador, uma história exemplar que ajuda o maçom a se situar no mundo, a se situar dentro da Ordem e a compreender a sua missão e os objetivos da Maçonaria. Este mito exemplar é aquilo que o, na linguagem maçônica, se designa como Lenda de Hiram, e eu prefiro dizer Mito de Hiram, exatamente porque se trata de uma história exemplar que ajuda o maçom a se situar na Ordem e no mundo.

Os historiadores das religiões ao estudar os mitos, eles constatam que muitas vezes os mitos, eles se desdobram e como que se repetem através dos rituais, é como se um mito fosse um script de uma peça de teatro e o ritual uma representação dessa peça em que os atores repetem as palavras e os gestos que estão presentes naquele script.

Então é exatamente isso que acontece no Grau de Mestre. Nós temos um mito, o Mito do Hiram, e nós temos o Rito de Exaltação, que é uma dramatização, uma repetição teatral, digamos assim, daquilo que é narrado no Mito de Hiram. Eu vou basear a minha exposição num antropólogo, o mais importante, a meu ver, dos antropólogos do Século XX, Claude Lévi-Strauss que foi um dos fundadores da USP. Esteve em 1935 em São Paulo, com uma missão francesa e ajudou a montar a Universidade de São Paulo.

Ele é um dos grandes especialistas de mitos e é nele que eu vou basear a minha exposição. O Lévi-Strauss ele rapara, estudando mitos, ele repara que todo mito não é uma narrativa só. Todo mito se desdobra numa porção de variantes, com pequenas discrepâncias, pequenas variações, de uma variante para outra, e essas variações formam um conjunto, e nesse conjunto de variantes é praticamente impossível você apontar qual é a narrativa autêntica, ou a narrativa pura, ou a narrativa mais antiga.

Você não consegue chegar a isso. E quando você quiser estudar o mito, o primeiro trabalho que você tem a fazer é recolher todas as versões possíveis e imagináveis, que estiverem ao teu alcance, e fazer um feixe, um bloco dessas versões e procurar estudar esse conjunto. E nota o Lévi-Strauss que o mito é uma estrutura viva que está sempre se transformando, está sempre produzindo novas variantes, novas combinações, novas interpretações, novos significados.

E às vezes quando a gente procura dar uma interpretação filosófica ou científica do mito, na realidade o que a gente está fazendo é criar uma nova versão do mito, uma nova narrativa mitológica.

Exemplo, o que Fleud fez com o Mito de Édipo, não é uma teoria científica, mas sim uma nova versão, uma nova maneira dele de contar o Mito de Édipo. Outro ponto importante, como é que funciona o pensamento mítico. Segundo o Lévi-Strauss, o pensamento mítico funciona através de um processo que ele chama de bricolage intelectual.

O que é bricolage? Bricolage é o trabalho do engenheiro de fim de semana, do engenheiro amador que gosta de ir para o fundo de quintal, brincar de mecânico, pega fragmentos de máquinas velhas e objetos diferentes, combina esses fragmentos entre si, e de maneira criatura e original ele vai criando novas máquinas, novos objetos, novas estruturas.

É assim que o pensamento mítico opera, ele se apodera de fragmentos de pedaços de narrativas mas antigas, combina esses fragmentos entre si e vai emprestando novos significados. Então nós vamos ver como é que esse processo de bricolage opera no Mito de Hiram.

O mito maçônico de Hiram é uma construção intelectual da época da formação da maçonaria moderna, ou seja, ele surge nas primeiras décadas do Século XVIII, e é resultado de um processo de bricolage. Eu vou narrar muitíssimo rapidamente, o Mito de Hiram, que diz mais ou menos o seguinte : O rei Salomão em tentando realizar o projeto de seu pai, o rei Davi, de construir um Templo ao Senhor, firma um tratado com Hiram, rei da cidade finícia de Tiro, que lhe manda materiais de construção, uma equipe de trabalhadores, que é chefiada por um hábil arquiteto chamado Hiram Abif.

Os trabalhos se desenvolvem e já na fase final, três maus companheiros, da equipe dos trabalhadores, que não haviam sido iniciados no Grau de Mestre querem arrancar do arquiteto a palavra sagrada, a palavra secreta dos mestres pela força e acabam assassinando o mestre porque ele não lhes transmite essa palavra. Eles matam o mestre e tentam ocultar o corpo, sepultando de maneira precária, marcando o local com um ramo de acácia.

O rei Salomão ordena uma investigação, os criminosos são presos e executados, e o corpo do arquiteto recebe uma sepultura digna, com todas as honras. Agora o Ritual de Exaltação sugere, aponta para a ressurreição de Hiram Abif numa cena dramática em que o neófito está deitado no esquife fazendo o papel de Hiram Abif é levantado pelo chamado cinco pontos de perfeição, que eu vou falar mais adiante.

Pois bem analisando essa história, do Mito de Hiram, segundo o método Lévi-Strauss nós verificamos que essa construção maçônica do Século XVIII ela resulta de um processo de bricolage intelectual e nós podemos isolar os componentes dessa bricolage.

O componente, talvez, mais importante é o texto Bíblico, ou seja, as narrativas Bíblicas sobre a construção do Templo de Salomão que existem nos livros de Reis e Crônicas. Note-se que na narrativa Bíblica não há nenhuma menção à morte de Hiram, isso é uma coisa que vem de fora, é um outro elemento que entrou nessa bricolage e além disso na Bíblia, o Hiram é apresentado com o um artesão hábil em metalurgia e não como arquiteto. Um outro componente dessa bricolage é um mito egípcio, um mito da morte e ressurreição de Osíris, tal como era narrada em autores clássicos greco-romanos que estavam acessíveis aos intelectuais do Século XVIII, os principais são Heródoto, Diodoro da Sicília, e Plutarco, que em suas obras fazem várias menções ao mito egípcio de Osiris.

Osiris é esposo e irmão de Ísis, criador da agricultura, da civilização, Osirs é morto por seu irmão Seth e ressuscitado pela magia de Isis, e torna-se senhor do mundo dos mortos. Em terceiro lugar, um elemento dessa bricolage que não está explícito, mas está, digamos assim, implícito, está por de trás da narrativa, é a narrativa da Paixão de Jesus, nos Evangelhos. Não aceita nenhuma menção específica, clara, mas subentende que a narrativa da Paixão está por de trás do Mito de Hiram e eu dou só uma pista, no Mito de Hiram, o arquiteto é morto por três maus companheiros, nas narrativas da Paixão, Jesus é vítima basicamente de três grandes malvados, que são Judas, Caifás e Pilatos. Agora vamos examinar mais de perto a narrativa Bíblica, a narrativa da construção do Templo de Salomão.

A ciência Bíblica também nos mostra que a narrativa da construção do Templo não é uma narrativa original, ela também é o resultado de um processo de bricolage. Para começar, o que que nós sabemos do Templo de Salomão a partir da arqueologia? A resposta é nada, não foi descoberto nenhum vestígio do Templo de Salomão, inclusive porque há uma porção de construções modernas em cima, consideradas sagradas e seria muito complicado fazer uma escavação arqueológica, em regra, naquele local, onde a tradição diz que existiu o Templo. Mas a arqueologia Bíblica revela que em vários lugares da terra santa foram encontrados vestígios de templos com a mesma estrutura que é descrita na Bíblia como sendo a estrutura do Templo de Salomão, então a estrutura do Templo não é original, aquilo foi inspirada em modelos em templos antigos que tinham aquela estrutura. Em terceiro lugar, na mesma área cultural da Síria e Palestina, nós temos textos literários onde aparecem narrativas que apresentam a mesma estrutura da narrativa da construção do Templo, com algumas pequenas modificações, com algumas alterações, e essas narrativas são mais antigas que o texto Bíblico. Por exemplo, foi descoberta, mais ou menos a parte de 1929 uma biblioteca de uma cidade que floresceu no litoral da Síria chamada Ugarit, e ali, nessa biblioteca, de Ugarit, foi encontrada toda uma série de narrativas míticas próprias dos povos fenícios e cananeus e alguns estudiosos chamam essa literatura de Ugarit, de uma anti-Bíblia, porque na Bíblia os cananeus são estigmatizados com um povo pagão, um povo debochado, um povo pecador que deve ser extinto, ser aniquilado, etc., e as tradições dos cananeus precisam ser também destruídas e extintas.

Na literatura de Ugarit são os próprios cananeus que tomam a palavra e contam os seus mitos, as suas lendas, as suas tradições, e é interessante notar, que muita coisa que na Bíblia é tida como negativa, é reprovada, na literatura de Ugarit é tida como positiva, como altamente recomendável. Daí então a gente chama a literatura de Ugarit de anti-Bíblia.

Pois bem na literatura de Ugarit nós encontramos uma história de uma construção de um Templo, Palácio, uma historia literariamente muito mais antiga do que a história da construção do Templo de Salomão. Ali se conta como os deuses se reuniram para construir um templo, um palácio para o deus Baal, que é o deus da fertilidade, das chuvas, das tempestades e dos trovões, e para construir esse palácio, templo para Baal, eles chamam um arquiteto estrangeiro, então aparece aqui o tema do arquiteto que vem de longe e esse arquiteto do templo de Ugarit vem de onde? Vem da cidade de Mênfis, no Egito.

E agora então dando uma salto de Ugarit para a tradição egípcia, o que que nós temos em Mênfis? Mênfis é o centro de um culto, de um deus chamado Ptah, que é a versão egípcia do criador do universo, na linguagem maçônica seria o Grande Arquiteto do Universo, vestido de deus egípcio, ou seja, Ptah é um deus artesão e fabrica o mundo, fabrica o universo usando como ferramentas a sua palavra e o seu pensamento. E é de Mênfis, exatamente a cidade de Ptah, que vem um arquiteto construir um palácio para Baal.

Agora um detalhe interessante. Na lenda maçônica quem morre e ressuscita é o arquiteto, na lenda de Ugarit também tem um elemento que morre e ressuscita, mas é o deus dono do templo, é o próprio Baal, que morre e ressuscita. Nós temos aqui uma variação interessante, então a Bíblia nos fala então de artesãos, de metalúrgicos que vem da fenícia, o texto cananeu nos fala de um arquiteto que vem do Egito, e há um texto curioso de um teólogo cristão, dos primeiros séculos da era cristã, Clemente de Alexandria, um texto chamado Correspondência de Salomão com os reis do Egito e de Tiro, e nesse texto Clemente de Alexandria elabora uma narrativa que mistura os dois temas, a conexão fenícia e a conexão egípcia.

Assim, nesse texto, ele diz que tanto o faraó egípcio chamado Onaphres quanto o rei de Tiro mandaram a Salomão uma equipe de trabalhadores e sendo que o soberano fenício mandou também um arquiteto, só que o arquiteto não se chama Hiram, mas sim Hyperon, um nome grego.

Então um texto que reúne duas versões : uma versão fenícia de origem Bíblica e uma versão egípcia de origem ugarítica. Agora, o mito maçônico de Hiram, ele também não é uma narrativa única, ele tem uma porção de variantes e prolongamentos, em alguns dos altos graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, nós temos algumas dessas variantes e prolongamentos que por razões óbvias não podemos expor aqui. Mas nós temos, por outro lado, três textos literários que são do domínio público, é literatura ao alcance do profano em que apresentam variações do mito de Hiram.

Em primeiro lugar temos um livro chamado Viagem ao Oriente, que é uma narrativa romanceada, de uma viagem ao Oriente próximo, de autoria de um poeta francês Gérard de Nerval do, Século XIX, que parece que foi filho de maçom. E num dos capítulos ele conta a história da rainha de Sabá e dos seus amores com o arquiteto Hiram. Então ali aparece uma versão sui generis do Mito de Hiram, em que se dá ênfase então numa história de amor, do arquiteto com a Rainha de Sabá, que vem visitar o rei Salomão, em busca de sabedoria e isto não aparece no rito maçônico, a não ser de uma maneira muitíssimo discreta, é sugerido em certo ritual maçônico, e nesse mito narrado pelo Gérard de Nerval aparece um outro personagem, também citado na lenda maçônica, que é o Tubal-Caim, o mestre de metalurgia. Agora tanto Hiram Abif quanto Tubal-Caim, no texto de Nerval, aparecem como mártires da ciência e da tecnologia que foram, vítimas da ignorância de sacerdotes fanáticos e de um rei vaidoso e fraco, manipulado pelos sacerdotes.

Então eles são apresentados como mártires do progresso tecno-científico, então é uma leitura do mito de Hiram bem ao gosto da civilização do Século XIX, a civilização do positivismo, da crença na ciência e na técnica, e civilização essa que reprovava superstições do passado, tidas como obstáculos ao progresso, então atrás dessa narrativa do Gérard de Nerval, sobre o mito de Hiram, subentende-se uma outra narrativa mitológica, agora não mais Bíblica, mas de origem grega, o Mito de Prometeu. Prometeu é o titã gigante que desafiou aos deuses, arrancou dos deuses os segredos do fogo e deu ao homem, beneficiou a humanidade. Então se no rito maçônico do Século XVIII há uma certa identificação, entre Hiram e a Paixão de Cristo, aqui nessa versão do século XIX, há uma identificação de que Hiram com Prometeu que é a figura mitológica típica da civilização industrial moderna, é o herói, digamos assim, que melhor simboliza a civilização industrial.

Um outro texto literário é um romance, este já dos nossos tempos, dos nossos dias, Mestre Hiram e o Rei Salomão, de um autor francês chamado Christian Jacq que é egiptólogo e que escreve uma série de romances sobre o Egito antigo e combinando esses romances com temas iniciáticos maçônicos. Aqui também, o Salomão é pintado como um monarca orgulhoso e supersticioso pressionado por um clero fanático e obscurantista e temos também o idílio entre o Salomão e a Rainha de Sabá.

Mas o arquiteto aqui é egípcio, é um iniciado nos mistérios egípcios que o faraó do Egito manda com uma missão especial a Israel para ajudar a Salomão a construir o Templo e manter o reino de Israel na órbita do poder egípcio. Então neste texto literário de Chrstian Jacq aparece mais uma vez a conexão egípcia que nós vimos aparecer há pouco no texto de Ugarit. E finalmente nós temos um texto literário brasileiro, o Diário de um Construtor do Templo, de autoria do Ir.´. José Rodrix, que é conhecido músico, jornalista, escritor maçônico, e nesse romance ele não é muito original, ele se mantém bastante fiel tanto a tradição Bíblica quanto à lenda maçônica, só que esse romance tem como protagonista um operário, um obreiro do Templo que assiste todo o drama do Hiram e do seu assassinato, pelos maus companheiros e esse romance também coloca no meio da narrativa, os vários prolongamentos e variantes do mito que a gente tem nos graus escoceses.

Até então nenhuma novidade, a novidade vem no fim do livro, no fim do livro, nas últimas páginas ele introduz um novo elemento nessa bricolage intelectual que é o Brasil, existe uma tradição mitológica entre aspas que alguns acreditam ser verdadeira, de que o Brasil foi descoberto por navegantes fenícios exatamente na época do Rei Salomão, então o Zé Rodrix introduz esse elemento na narrativa e o herói do livro, no fim, se prepara para viajar para o Brasil, que é pintado como uma terra paradisíaca, uma terra tropical, cheia de papagaios, e fadado a ser o país do futuro. Então olhe como o mito está vivo e ele é sujeito a uma série de reelaborações, de reinterpretações, prolongamentos, isto é a bricolage então a maçonaria brasileira produziu uma releitura brasileira do mito de Hiram.

Agora o Mito de Hiram ele pode ser objeto de várias interpretações, alguns adotam uma interpretação naturalista, ou seja o personagem de Hiram que morre e ressuscita e simbolizaria ou sol que desaparece no inverso para voltar na primavera com mais força ou a vegetação que morre no inverno e ressurge na primavera, e etc. Agora há interpretações antropológicas muito mais interessantes, por exemplo, um outro antropólogo francês René Girard lançou uma tese interessante, de que todos os deuses e heróis mitológicos, nada mais são do que reminiscências de personagens que foram mortos em situações dramáticas, violentas responsabilizados por crises sociais de que eles não tinham absolutamente culpa nenhuma, eram aquilo que em linguagem normal se diria o bode expiatório, então a sociedade apresenta uma situação de mal estar devido a uma crise, ninguém sabe porque que todo mundo está sofrendo, por todo mundo está incomodado, nada dá certo, aí começa a prestar atenção num sujeito meio esquisito, que tem um comportamento meio diferente dos demais, é ele, é ele, é ele o culpado, não é, aí a sociedade inteira se levanta e massacra ou lincha esse culpado, e como a sociedade se uniu para linchar aquele sujeito desapareceram os conflitos, as brigas, os maus estares e a comunidade recupera pelo menos temporariamente a sua ordem, então esse personagem com o passar do tempo é divinizado, transformado num deus, ou num herói, e o Hiram Abif pode ser visto assim, ou seja a morte do Hiram pode ser vista como resultado de uma crise nos trabalhos de construção do Templo, os trabalhadores não se entendem, os companheiros querem passar à frente dos mestres, tomar a palavra sagrada dos mestres e assassinam o mestre e vira assim uma espécie de bode expiatório, mas depois da morte do mestre, finalmente consegue-se construir o Templo.

Agora, ainda antropologicamente, em várias sociedades existe um ritual sangrento, um ritual cruel, que se chama sacrifício de fundação que é o seguinte em certos povos, quando se construíam um palácio, um Templo ou um Castelo, uma fortificação para garantir que aquela construção fosse levada a bom termo, se sacrificava uma pessoa, se enterrava a pessoa no lugar da construção e suponha-se que essa pessoa fosse transformasse numa espécie de divindade tutelar que protegeria os trabalhos e que levaria aquela construção a bom termo, então lido dessa maneira, o Mito de Hiram seria o mito relativo ao sacrifício de construção em que o sacrificado é o próprio arquiteto.

Olha existem tradições da maçonaria operativa medieval que passam muito perto disso, eu apresento aqui no trabalho, infelizmente não há tempo para ler um poema oriundo da Europa Oriental, da Rumenia, é a historia de um mestre chamado Manolo que foi convocado por um príncipe, para construir um mosteiro e as obras não caminhavam, tudo o que os operários construíam de dia, vinha um poder maléfico de noite e destruía tudo e o Manolo tem um sonho, que é uma revelação, se ele quisesse construir um mosteiro ele tem que matar e sacrificar a primeira pessoa que aparecer no dia seguinte, no canteiro de obras. E quem aparece é a namorada do Manolo trazendo o lanche para os operários, então é um drama terrível, mas ele leva a termo a sua decisão e empareda viva a moça durante o trabalho de construção e constrói-se o mosteiro. No fim morre todo mundo, o Manolo, os operários, e aquele lugar, com aquela construção fica marcado como um lugar maldito. O poema é muito bonito, está aqui no apêndice do trabalho e vocês podem ler em casa.

Então nós temos várias variantes do rito de sacrifício de fundação, então, elege-se um indivíduo qualquer e ele é sacrificado. Num outro caso é a noiva ou a namorada do arquiteto que é morta e no mito maçônico é o próprio arquiteto que é morto e sacrificado para que a construção do Templo seja levada a bom termo. Agora, isto aqui agora é para encerrar, há um momento crítico no ritual em que na fase mais importante do processo de exaltação, o neófito que está deitado no esquife é levantado pelos chamados cinco pontos de perfeição e esse ritual ele tem dois significados, em primeiro lugar, é um simbolismo de fraternidade, ou seja, ninguém pode se tornar mestre sozinho, a pessoa que vai ser iniciada ou exaltada a mestre, precisa do auxílio, do apoio dos seus companheiros e principalmente do Venerável que é quem o levanta pelos cinco pontos de perfeição.

O outro significado desse ritual está na transmissão inciática ou seja através daqueles cinco toques, a dignidade de mestre, o segredo da maestria são transmitidos pelo Venerável ao novo mestre que está nascendo ali.

Agora por que cinco? Por que são cinco pontos, e não quatro, ou não seis? A resposta está na simbologia medieval, na idade média existe uma complexa teoria simbólica tudo na idade média é símbolo de alguma coisa e o número cinco aparece num tratado de uma mística que Hildegarde de Bingen, do século XII como sendo, por excelência, o número do homem, palavras de Hildegarde de Bingen, o homem se encontra dividido, no sentido da altura; do alta da cabeça até os pés em cinco partes iguais.

No sentido da largura formada pelos braços estendidos da ponta de uma mão à outra, também em cinco partes iguais, levando-se em conta essas cinco medidas iguais, em altura e largura, o homem pode ser inscrito num quadrado perfeito, mas agora de onde vem aquele gesto das pessoas se tocarem por cinco pontos? É um segredo que vem da maçonaria operativa, no seminário de aprendiz eu falei do caderno de um arquiteto medieval chamado Villard de Honnecourt, um arquiteto do Século XXIII, desenhos e nesses desenhos aparecem duas pessoas engalfinhadas, como se estivessem lutando e se agarrando pelos ombros, acontece que esse figura de duas homens se agarrando pelos ombros e com os pés se tocando é como nos cinco pontos de perfeição, ela representa um forma geométrica, a forma da janela em ogiva, própria das catedrais medievais, então esta prática dos cinco pontos de perfeição é uma herança que a maçonaria moderna herdou das suas antecessoras, a maçonaria operativa. E finalmente, agora para encerrar, eu vou mais uma vez chamar o Lévi-Strauss que eu usei no início do trabalho.

O Lévi-Strauss está muito preocupado com as relações entre natureza e cultura e essa questão está presente aqui também no Mito de Hiram, ou seja o que que é o Arquiteto? O arquiteto é um mediador entre natureza e cultura, é um homem que sai da cidade, vai ao campo, vai à natureza, e traz de lá materiais brutos, madeira e pedra e transforma isso aí em que? Em objetos culturais que são as construções, então o papel do arquiteto é ser um mediador entre natureza e cultura e não é à toa que nas várias mitologias os deuses criadores sejam representados ou como arquitetos como construtores ou então como oleiros como trabalhadores do barro.

A narrativa Bíblica de Deus fazendo o homem a partir do barro isso tem um porção de narrativas semelhantes, inclusive aqui entre os índios da América, então entre outras cousas o Mito de Hiram nos convida também a meditar sobre as relações entre natureza e cultura, que no momento presente vão muito mal, nós diríamos que este mundo pós moderno em que vivemos padece de um mal, de uma doença que seria civilização em excesso, ou cultura em excesso e isto redunda em prejuízo para a natureza e nós estamos destruindo a natureza, arrasando com o meio ambiente e destruindo a natureza nós corremos o risco de perecer também porque não podemos esquecer que mesmo sendo seres culturais, tendo construído, edificado, uma cultura somos também seres naturais o nosso alicerce vital, digamos assim, esta na natureza e se nós destruirmos a natureza, nós pereceremos junto com ela, então nós podemos também ler esta mensagem nas entrelinhas do mito maçônico de Hiram.

E tem muito mais que isso, eu fiz apenas um resumo bastante rápido e mais uma vez eu convido os IIr.´. a lerem esse trabalho em casa, com carinho, para acompanhar toda a argumentação e toda fundamentação bibliográfica que eu usei aqui. E com isso então eu dou por encerrada a minha exposição. 

A Ordem e as Obediências

Os Maçons serão dependentes das Obediências enquanto não atingirem o comportamento capaz de fazê-los conviver apenas na Loja-base, de forma efetivamente fraterna. 



a) ORDEM MAÇÔNICA 
Um segmento representativo de Maçons não percebe a diferença que existe entre Obediência Maçônica e Ordem Maçônica. Imaginam que se trata da mesma coisa.

Ordem Maçônica – ou Maçonaria como Instituição – é por definição, universal. Sendo a Maçonaria Especulativa uma continuação da Operativa, surgiram outras expressões, Ordem dos Maçons e Ordem Maçônica, que remontam à época da introdução da Maçonaria, também chamada Arte Real.

Quando se fala em “instituição maçônica”, não há nisto mais que uma comodidade de linguagem, pois que, historicamente, a Maçonaria não foi instituída, não teve fundador. Não tem papado, não conhece – como a igreja – a unidade administrativa, mesmo sob a forma federal.

A Grande Loja de Londres, fundada em 1717 por quatro Lojas visava estabelecer um órgão diretor das Lojas existentes em Londres. Não podia prever o sucesso que seria alcançado pela Maçonaria em seu aspecto especulativo e que se espalharia pelo mundo inteiro e seria o centro de união de milhões de homens, que se consideram Irmãos entre si e cujo fim é viverem em perfeita igualdade, atados apenas com os laços da fraternidade, estima e confiança, estimulando-se um aos outros, na prática das virtudes, tendo como ideal a LIBERDADE, a IGUALDADE e a FRATERNIDADE, num sistema de Moral, velado por alegorias e ilustrado por Símbolos.

É supérfluo procurar o berço da Maçonaria no Oriente antigo, no Egito, na Grécia ou na Roma antiga, porque ele é encontrado prosaicamente na Inglaterra. Outras hipóteses não puderam resistir a um exame sério.

Contudo, a influência ocultista na Maçonaria, ou seja aquelas nas quais intervém efeitos maravilhosos e sobrenaturais, em contradição aparente com a ciência experimental, são chamadas ocultas porque foram transmitidas, de geração em geração, de uma maneira oculta, pois seus adeptos se ocultavam para exercê-las, a fim de subtraírem-se à autoridade civil religiosa.

É inegável que, embora não sendo a Maçonaria uma religião, e nem uma Ordem mística, utiliza em seus rituais, simbologia, em sua estrutura filosófica e doutrinária, padrões de diversas civilizações, antigas, relativos às religiões e às ordens iniciáticas de cunho religioso, no dizer do Ir.’. Castellani, (notável escritor maçom, recentemente chamado ao Or.’. Eterno), mantendo íntimas relações com a Metafísica, com a Mitologia, a Teologia, a Teosofia, com a Religião e com a Astrologia. Na mística maçônica há uma acentuada influência das crenças politeístas dos sumerianos, dos babilônios, persas, egípcios e gregos antigos, as crenças monoteístas do judaísmo e cristianismo.

Os sumerianos, ao elaborarem o seu sistema cosmológico, fizeram uso das doze constelações principais, através das quais o sol e a lua passavam regularmente; foram os precursores do Zodíaco.

Os nossos Templos maçônicos possuem a representação do Sol e da Lua, de diversas constelações e planetas, além de doze colunas com os símbolos dos signos do zodíaco.

O símbolo sumeriano para a divindade era uma estrela e isto também é certo, especialmente no simbolismo desta no 2º grau do simbolismo maçônico. O culto solar, criado pelos mesmos e da astrologia, aperfeiçoada pelos babilônios, muita contribuição trouxe à Maçonaria, ao calcar a sua doutrina moral, espiritual e filosófica, representando a marcha do aprendiz em direção à Luz do conhecimento, a meta do iniciado, caminhando do ocidente para o oriente, onde nasce o Sol, donde vem a luz das antigas civilizações, no dizer do próprio Ritual.

A Maçonaria, como outras ordens iniciáticas, considera a Iniciação como o símbolo da morte e ressurreição e por sucessivas e simbólicas mortes e ressurreições chegará o iniciado à plenitude dos ensinamentos esotéricos.

A estrela de cinco pontas, que, a partir, do séc. 18 passou a denominar-se “Estrela Flamejante”, vem da Escola Pitagórica da qual era símbolo e representa a espiritualidade, ou seja, o homem em sua alta espiritualidade, quando com ápice voltado para cima, pois nela se inscreve uma figura humana, por isso também se chama de estrela hominal. Quando invertida, se inscreve a figura de um bode, representando a materialidade, com todos os seus atributos.

Na Maçonaria há muitos símbolos dos alquimistas, com vistas a armar a sua doutrina moral e espiritual.

Exemplo alquímico, na Maçonaria, são as provas pelas quais deve passar o candidato à iniciação: ar, água, terra e fogo, dos ensinamentos de Aristóteles e que representam os quatro elementos. A da Terra é a da Câmara de Reflexão, a do Ar, é representada pelas tempestades, simbolizando os percalços da vida humana; a da Água é destinada à purificação das mãos; a do Fogo representa a purificação total, simbolizando a destruição da matéria pelo fogo, restando o místico ser imaterial e aperfeiçoado.

O povo hebreu trouxe grande contribuição à Maçonaria: O “livro da lei”, o Pentateuco (os cinco primeiros livros do Velho Testamento, atribuídos a Moisés: o Gênese, o Êxodo, o Levítico, o Números e o Deuterômio; Tora), e outros livros do V.Testamento contém muita coisa, que é usada, mormente na simbologia maçônica.

Mas, além da denominação que se aplica à Maçonaria propriamente dita, este vocábulo (ORDEM) é ainda aplicado: 1º - Ao Sinal de Ordem; 2º - À Ordem do Dia; 3º - Estar à Ordem; 4º - Palavra a bem da Ordem; 5º - Ordem dos Trabalhos; 6º - Ordem – é a compostura, a disciplina e o silêncio que devem ser observados pelos Maçons no decorrer dos Trabalhos e em todos os atos da vida maçônica, e que deve ser sentida pelos Vigilantes, pelo Mestre de Cerimônia ou Segundo Diácono.



b) OBEDIÊNCIA MAÇÔNICA 
Até a criação da primeira Obediência do mundo, “The Premier Grand Lodge” – 24 de junho de 1717 – as Lojas eram livres; posteriormente, com a implantação do sistema obediencial, por consenso maçônico, em todo o mundo, não se admitem mais Lojas Livres, ou descobertas, que seriam consideradas irregulares. Se não existe Obediência em Loja – e bastam três Lojas para criar uma – também não existe Loja regular fora do sistema obediencial.

Obediência é uma Potência Maçônica Soberana, constituída pela reunião de várias Lojas formando uma Federação sob o nome de Grande Loja ou de Grande Oriente. Este termo tem o mesmo significado de “Jurisdição”. Assim, as Lojas da Obediência de tal Grande Loja ou Grande Oriente.

Partindo dessa premissa, conclui-se que a Obediência Maçônica, enquanto aparato administrativo da Ordem, é particular. Até sua criação as Lojas formavam a Ordem Maçônica. A Obediência é portanto o somatório das Lojas.

A Ordem Maçônica é representada pelas Lojas Maçônicas. Esta é sua essência. O conceito de “Obediência Maçônica” não se confunda com o conceito de “Ordem Maçônica”.

As Lojas Simbólicas formam aquilo que é essencial para a vivência maçônica, uma vez que os Trabalhos Maçônicos desenvolvem-se exatamente em Loja. A Maçonaria, portanto, está nas Lojas enquanto realidades voltadas para propósitos maiores.



Valdemar Sansão



Ensaios louvados na literatura dos Rituais, na Constituição e no Regulamento Geral de Obediências Maçônicas. 
A impossibilidade de divisão do poder, no campo maçônico, encontrou seu momento de materialização na criação das Obediências Maçônicas.

Nicola Aslan, citando Marius Lepage, traçou a linha divisória entre aquilo que chamou de Ordem e de Obediência.


As Lojas podem existir sem Grandes Lojas ou Grandes Orientes assegurando a sua Federação. O inverso não é verdadeiro. Nem Grande Loja nem Grande Oriente pode existir sem as Oficinas denominadas “azuis” que deles são a base. Desta forma se revela claramente a diferença entre a Ordem e Obediência.

A Flauta Magia


Parte 1. O contexto

Corria o Verão de 1791. Consta-se em Viena que o Imperador Leopoldo II, sucessor do vanguardista José II, pretende proibir a Maçonaria. Mozart, que pertencia à Loja Esperança Coroada, conhecida por ser um dos grupos mais progressistas do seu tempo, decide escrever uma ópera a criticar essa atitude do soberano.

Juntamente com outros dois maçons (Schikaneder, brilhante ator, e Giesecke, futuro professor de Mineralogia na Universidade de Dublin) prepara A Flauta Mágica, peça de ópera fantástica em que um enredo caricatural esconde simbologia maçônica. Mozart sabia que Leopoldo II, homem de grande cultura, perceberia a mensagem. Contudo, escreveu uma ópera dirigida ao grande público e não ao pequeno círculo daqueles que poderiam descodificar a obra. Prova-o o número de representações e o sucesso destas, mesmo contra as críticas azedas de alguns eruditos da época (excetua-se, por exemplo, Salieri que aplaudiu este trabalho entusiasticamente). Ironicamente, esta obra que ainda era representada quando Mozart morreu de febre pneumônica nesse mesmo ano, não foi concebida para ganhar dinheiro, de que Mozart necessitava desesperadamente ao ponto de se sujeitar a estranhas encomendas (o Requiem, K626). Foi a sua forte convicção maçónica que o fez consagrar o seu tempo de trabalho, e alguma da sua melhor arte, nesta ópera. A Flauta Mágica que é hoje a ópera de Mozart mais apreciada e representada. Uma forma sublime de dar um recado...


Parte 2. Contexto Histórico

A vida de Mozart, e concretamente a sua obra Die Zauberflöte, coincide com uma franca explosão de maçonaria mundial, mas também da sua perseguição...

A Grande Loja de Londres foi formada em 24 de Junho de 1717, tendo a sua primeira Constituição surgido em 1723 por lavra do Pastor Anderson. Dado que a Grã-Bretanha era vista, nessa fase da história européia, como a Pátria da Liberdade, e uma vez que se vivia pela Europa fora um clima de abertura que veio a ser conhecido por Século das Luzes, a exportação do modelo da maçonaria especulativa para o continente, nomeadamente para a França, foi quase imediata.

A primeira Loja em Portugal terá surgido por volta de 1727 (dos Hereges Mercantes) tendo-se regularizado em 1735. Já em 1733 foi fundada a Casa Real dos Pedreiros-Livres da Lusitânia que pode ser entendida como a predecessora da Maçonaria Portuguesa de hoje.

Em 1738, quando a expansão da ordem era tal que já surgiam em França as primeiras reformas, como o Rito Escocês de Ramsay, a Maçonaria foi alvo de uma bula de excomunhão dos pedreiros-livres, promulgada por Clemente XII, assustado pelo caráter livre-pensador desta Ordem em exponencial expansão.

Foi em 1742, quando a Loja de Coustos sofreu repressão exemplar pela Inquisição portuguesa que se formou a primeira Loja austríaca, de seu nome Aux trois Canons, formada a partir de uma Loja de Breslau (hoje Wroclaw, na Polónia) Aux trois Squelettes.

A expansão da maçonaria no Império Austro-Húngaro foi rápida, talvez devido ao prestígio emprestado pelo Duque de Lorraine, Francis Stephen, que era maçom desde 1731 e que conseguiu convencer o Imperador Charles VI a ignorar a bula papal.

Francis Stephen viria a ser Imperador, proporcionando à Maçonaria Austríaca uma época dourada que viria a ser ensombrada com a sua morte em 1765. Marie Thérese, sua esposa, assume os destinos do Império, reinando em conjunto com seu filho Joseph II. Apesar deste ser um progressista iluminista, o cerco à Maçonaria iniciou-se desde logo, pois Marie Thérese, por influência do seu catolicismo, era acérrima inimiga da Ordem.

Sendo inicialmente de cariz religioso, cedo as suas objeções se revelaram também políticas: nas Lojas Maçônicas nobres e plebeus eram tratados como iguais, discutindo livremente qualquer tópico, professando diferentes religiões sem discórdia, mantendo elos secretos de solidariedade por vezes transnacional.

A Imperatriz, como muitos soberanos na época, reconheceu na maçonaria um potencial de instigação revolucionária que, como a Declaração de Independência Americana de 1776 veio provar, poderia destronar as velhas nobrezas do poder.

Joseph II, ao que parece ele próprio maçom, era favorável aos princípios da Ordem, tal como se demonstra por uma epístola enviada ao maçom Colloredo, Arcebispo de Salzburg: o Império que dirijo deve ser governado de acordo com os meus princípios: os preconceitos, o fanatismo, a arbitrariedade e a opressão das consciências devem ser reprimidos e cada um dos meus súditos deve ter direito às liberdades que lhe pertencem.

Todavia, mesmo reinando sozinho desde 1780, os acontecimentos dos últimos anos e as informações alarmistas da polícia secreta fizeram com que o Imperador tentasse refrear a Ordem Maçônica, que só em Viena teria já mais de mil adeptos.

Violando claramente essa sua alardeada vontade de respeitar as liberdades de seus súbditos fez publicar, a 28 de Março de 1781, um decreto que viria a ser um golpe mais eficaz que as bulas de Clemente XII (1738) e Benedicto XIV (1751), uma vez que quebrou a regularidade das Oficinas do Império: nenhuma ordem espiritual ou secular pode submeter-se à autoridade estrangeira nem essas ordens poderão pagar tributos à outra entidade que não a Monarquia.

A constituição da Grande Loja da Áustria, em Abril de 1784, não conseguiu travar o declínio iniciado. A 22 de Abril de 1784 havia 17 lojas na Áustria, 7 na Boémia, 12 na Hungria, 17 na Bélgica e 4 em Lamberg (Galiza). Dessas, algumas delas, como a Verdadeira Concórdia do mineralogista Ignaz von Born, tinham mais de 200 elementos.

Foi nesse ambiente que Wolfgang Amadeus Mozart foi iniciado a 14 de Dezembro de 1784 na Loja da Beneficência (Viena), tendo passado a Companheiro a 7 de Janeiro de 1785.

As suas relações com a Maçonaria datam, pelo menos, de 1773 quando aceitou o pedido do maçom F.A. Mesmer (cientista conhecido pelos seus trabalhos sobre o magnetismo animal) para musicar um texto do também maçom Gebler. A obra denominava-se Thamos, Rei do Egito, cuja ação decorre na época em que lendariamente se atribui a fundação da Maçonaria. A egiptologia estava nessa altura intimamente ligada à maçonaria, como o surgimento do Rito Egípcio de Cagliostro demonstra.

É também curioso que, em Novembro de 1777, Wolfgang assine uma carta para uma prima sob o pseudônimo W. Amadé Rose-Croix. Outros indícios da sua proximidade são as conhecidas relações com os Mesmer ou o conde van Swieten, ou ainda a sua participação em atividades para-maçônicas como os Concertos dos Amadores. Há ainda a assinalar uma certa adesão de linguagem, demonstrada numa carta enviada ao Padre Martini em 1776 em que refere a necessidade de nos iluminarmos mutuamente e de nos empenharmos no progresso das Ciências e das Belas-Artes.

A Loja a que Mozart pertenceu estava bem dentro desse espírito. Sabe-se que era constituída por Príncipes, Condes, Barões, altos funcionários públicos, oficiais militares, diplomatas, escritores, músicos, banqueiros e comerciantes, e que os assuntos versados seriam muito provavelmente políticos e reformistas.

Contudo, o alto nível social dos seus elementos não evitou que em 11 de Dezembro de 1785 o Imperador Joseph II decretasse a redução das Lojas vienenses a 3 e dos seus membros a 180. Como consequência duas Oficinas dessa cidade abateram colunas (S. João e Constância) tendo alguns irmãos integrado a recém-formada Nova Esperança Coroada, constituída a partir das Lojas A Esperança Coroada, A Beneficência e Três Fogos. As restantes três Lojas de Viena, A Verdadeira Concórdia, A Palmeira e As Três Águias formaram sob o malhete de Born uma verdadeira Loja de elite chamada A Verdade. O decréscimo de mais de mil para 360 maçons e as perseguições que se seguiram ditaram que nenhuma das Lojas sobrevivesse à década seguinte.

Mozart empenhou-se na causa maçônica, tendo mesmo composto música ritual e várias cantatas. Ao fato de a partir da morte de Joseph II em 1790, não ter recebido mais encomendas reais, não se alheiam as suas conhecidas inclinações maçônicas. Apesar de Leopoldo II, o sucessor, ter sido Soberano Príncipe Rosa-Cruz na Toscânia, ele encontrava-se atemorizado pelos acontecimentos de 1789 em França, onde estalou uma Revolução sob o mote Liberdade, Igualdade, Fraternidade, identificado com os valores maçônicos. Apesar da Maçonaria Francesa ter sido uma das vítimas preferenciais do Terror (dado que se constituía por muitos membros da aristocracia) a irmã de Leopoldo, Marie Anthoinete, em prisão domiciliária, era peremptória em acusar esta Ordem da instabilidade das monarquias na Europa. Pior do que isso, sabendo que Frederico II da Prússia era, ele próprio, maçom, Leopoldo temia que a Ordem servisse como rede de oposição interna aliada ao inimigo do Norte.

A partir de 1790, Leopoldo II assumiu, receando as consequências da agitação causada pelas várias ordens secretas que operavam no Império Austro-Húngaro (i.e., Illuminati, Estrita Obediência/Templários, Irmandade Asiática, Rosa-Cruz, Lojas de S.João), uma posição ainda mais negativa que o antecessor, a qual viria a ser extremada após a sucessão por Francis II.

Em 1791, a situação da Maçonaria na Áustria era de agonia. W.A. Mozart foi contatado por diversos irmãos para produzir obra que propagandeasse as virtudes da Ordem maçônica. Já em 1785, Mozart tinha composto As bodas de Fígaro, ópera de contornos igualitários, e era-lhe por ora proposto que fizesse uma ópera séria para a coroação de Leopoldo II, em Praga. Por sugestão de alguns irmãos desta cidade, Wolfgang musicou a obra de Metastasio intitulada A Clemência de Tito em que se retrata um Imperador imbuído de valores de tolerância, poupando os seus inimigos, em alusão ao desejo de ver Leopoldo tolerar a existência da Maçonaria.

Nesse ano derradeiro de 1791, Mozart encontrava-se em plena produtividade. A última obra que apresentou em público foi A Flauta Mágica, que ele próprio conduziu. Esta ópera foi composta a partir do libretto de Schikaneder, que era simultaneamente ator e diretor de um teatro em Viena (Auf der Wieden). Schikaneder, maçom, propôs a Mozart esta ópera, escrita a partir de um texto de Wieland (Lulu e a flauta mágica), a partir do qual foi possível explorar a simbologia maçônica e deixar uma mensagem.


Parte 3. Sinopse Primeiro Ato.

Tamino, ameaçado por uma serpente, grita em vão por ajuda e desmaia.

3 Damas do Reino da Rainha da Noite matam a serpente e admiram a beleza da juventude inconsciente.

Papageno caça pássaros para a Rainha, mas quando se gaba de ter morto a serpente é castigado pelas 3 Damas que o amordaçam.

Quando Tamino acorda, mostram-lhe o retrato de Pamina, filha da Rainha, e ele apaixona-se.

Com um raio, a Rainha aparece e promete a Tamino a mão da filha desde que este a salve das garras do maléfico Sarastro.

As 3 Damas libertam Papageno da mordaça e dão-lhe um conjunto de sinos mágicos. A Tamino dão uma flauta mágica, para que este se defenda dos perigos a caminho do Castelo de Sarastro, a que será conduzido pelos 3 Rapazes.

No palácio de Sarastro, Papageno encontra Monostatos, que capturou Tamina, que tentava fugir, e que ameaça seduzi-la. Papageno e Monostatos assustam-se mutuamente, julgando ver o demônio.

Entretanto, os 3 Rapazes levam Tamino aos 3 Templos (da Natureza, da Razão, da Sabedoria).

Fascinado pela solenidade do local, Tamino apercebe-se que Sarastro afinal não é uma besta horrenda, mas antes o Sumo Sacerdote do Templo da Sabedoria. Afinal Pamina está viva e não corre perigo!

Então convoca Papageno com a Flauta Mágica. Eles ouvem, mas não se conseguem encontrar.

Pamina e Papageno fogem de Monostatos e seus escravos que os tentam aprisionar. Papageno, usando os sinos mágicos hipnotiza os escravos que deixam de os perseguir.

Entra Sarastro.

Pamina ajoelha-se e pede perdão pela fuga, enquanto Monostatos apresenta Tamino cativo.

Mas Sarastro fala docilmente aos enamorados, mas anuncia que terão de ser purificados antes da união.

Como prêmio, Monostatos recebe 77 vergastadas.


Segundo Ato.

Sarastro informa os Sacerdotes reunidos que deseja fazer de Tamino sacerdote e que o submeterá ao ritual iniciático. Foi por ele que raptou Pamina à mãe, pois os deuses destinavam-na a Tamino. Os Sacerdotes mostram o assentimento com 3 sopros de trombetas, e sarastro reza aos Deuses para que o espírito da sabedoria esteja neste par.

Tamino recebe as instruções de Sarastro obrigando-se ao silêncio e mantém-se firme quando as 3 Damas o tentam profetizando a desgraça. Só com dificuldade consegue evitar que Papageno fale. Este acompanha-o nas provas mas a estrada da purificação está-lhe vedada.

Monostatos, que rapta Pamina é surpreendido pela Raínha da Noite. Esta, dá um punhal a Pamina para que mate Sarastro. Monostatos apanha o punhal e força-a à rendição quando Sarastro intervém salvando-a.

Os 3 Rapazes conduzem Tamino a Pamina. 

Esta fica desiludida porque Tamino não lhe fala, pois mantém-se fiel ao juramento.

Sarastro exige mais um sacrifício a Tamino: que se despeça de Pamina.

Tamino, no caminho da purificação, é interrompido por Papageno e pela sua Pamina, disfarçada de velha para o tentar.

Os 3 Rapazes anunciam a chegada da manhã e salvam Pamina que estava prestes a cometer suicídio com o punhal.

Feliz, é autorizada a seguir Tamino nas provas do fogo e da água, os últimos marcos no caminho de provações.

Papageno, é também reunido à sua Papagena.

Pela última vez, os poderes das trevas reúnem-se e tentam extinguir a Luz. A raínha da Noite, as 3 Damas e Monostatos forçam a sua entrada no Templo, sedentos de vingança. Mas desaparecem numa explosão de raios e trovões e o Templo do Sol brilha na sua glória.


Parte 4. Breve Interpretação

É frequente ouvir comentar a Flauta Mágica como sendo uma peça ingênua, sem mensagem, de pobre conexão cênica. Todavia, em toda a sua idade adulta, Mozart nunca apresentou uma peça desprovida de significado. É, portanto, de esperar que os comentários que menorizam a grande ópera de Mozart sejam, eles sim, de uma profunda ingenuidade.

A aparente futilidade da história serve os intentos de quem quer falar publicamente de um assunto, mas que deseja ser ouvido em dois registros, um profano, a que se destina a historieta de amor de contornos fantásticos, e outro iniciático, contextualizado com a simbologia da Real Arte. Goethe traduziu essa intenção da Flauta Mágica afirmando que é suficiente que o público ache prazer no espetáculo: ao mesmo tempo a sua alta significação não escapará aos iniciados.

A Flauta Mágica provém de uma evolução temática de Mozart, iniciada na infância com a peça An der Freude (que compôs com 12 anos) sobre um texto maçónico, materializada em Thamos, Rei do Egipto, onde se aborda a temática da fundação da Maçonaria, e se consolida em obras como As bodas de Fígaro, A Clemência de Tito ou Zaide.

Se sabemos que Schikaneder assinou o libreto, não podemos ignorar que este não poderia ser responsável pela alta coerência da simbologia, uma vez que havia sido expulso da sua loja de Ratisbona, Karl zu den drei Schluessen, nunca tendo sido readmitido. Sabemos também que, quase 30 anos passados, aparece Johann Georg Metzler, jurista, minerólogo e ator, a reclamar a autoria das partes sérias desta obra. E, reconhece-se a profunda influência do Venerável Ignaz von Born na concepção e contextualização da obra. Isso implica a supervisão direta do próprio Mozart, única pessoa que tinha acesso aos três ideólogos conhecidos da obra.

Na Flauta há diferentes planos sobrepostos e a análise de um único plano peca por defeito. Assim, passaremos a analisar esta obra, encontrando muitas vezes significados distintos, mas concomitantes.

É notório o aparecimento de temas subtis recorrentes em Mozart como a igualdade entre os sexos (Cosi fán tuti). Assim, uma primeira interpretação desta obra poderia levar a que se julgasse ser apenas uma referência à luta entre sexos. A Rainha-da-Noite, elemento feminino representaria a ignorância, de que Pamina se liberta por casamento, enquanto Sarastro representaria a sabedoria. Poder-se-ia nesse sentido interpretar a obra como defensora de duas posições opostas: as mulheres ignorantes e incapazes de chegar aos segredos ou, pelo contrário, Pamina representando a redenção do sexo feminino, apresentada em igualdade com Tamino na cena final da ópera. Esta interpretação é pertinente e, seguramente, um dos objetivos a que Mozart se propõe. Registros históricos demonstram que a polêmica do papel das Lojas de Adoção ou Ritos Femininos estava bem acesa e que a Grande Loja Austríaca era uma das organizações mais favoráveis a uma participação feminina não decorativa. É também desse tempo o surgimento do Rito de Cagliostro, misto, do qual Mozart bebeu alguma simbologia egípcia. O início do Ato I faz uso de simbologia das Lojas de Adoção (Ordem de Mopses): a serpente, os pássaros, o aloquete. O número de Damas (3) significa que estas são iniciadas, o que justifica que se oponham ao mundo tradicional da maçonaria (representado pelos 3 rapazes).

Uma outra interpretação, de elevada coerência, foi proposta em meados do século passado pelo célebre teólogo Moritz Alexander Ziller, maçom proveniente de Leipzig, que reconheceu nas personagens alguns tipos da conjuntura de 1790. Segundo esta interpretação, Sarastro representa um dos mais importantes Mestres Maçons, o então recém-falecido Ignaz von Born, Tamino representaria o Imperador Joseph II, Pamina o povo austríaco, pelo qual Joseph II combateria a falaciosa proteção da Rainha-da-Noite, Imperatriz Marie Thérese. Outras personagens foram desta forma identificadas: p.ex., Monostatos seria um maçom renegado chamado Hoffmann. Se esta interpretação parece acertada, parece que a simbologia desta ópera não se esgota aí.

Uma curiosa interpretação refere-se aos quatro elementos pitagóricos e a um incessante jogo de espelhos, como se se tratasse de um mosaico. Neste texto, existem claros pares de opostos: Tamino representa o Fogo e Pamina a Água, Papageno representa o Ar e Monostatos a Terra. Com estes interagem os símbolos Solar e Lunar, respectivamente Sarastro e a Rainha-da-Noite. Ou os elementos masculino e feminino: a futilidade feminina de Papageno e a bestialidade viril de Monostatos, Sarastro contra a Rainha ou os Três Rapazes contra as Três Damas.

Este jogo de reflexos é associado pelos iniciados à dualidade entre as colunas Jakin e Booz, sob as quais são representados, respectivamente, Osíris e Ísis, Masculino e Feminino, Sol e Lua, Dia e Noite, Fogo e Água, Ouro e Prata, Ativo e Passivo, 5 e 3, Vermelho e Branco, Elucidação e Discurso, Maçonaria de Hirão e Ordem de Mopses (adoção).

Das interpretações já apresentadas, a história da Flauta apresenta-se como a rebelião contra o sexo forte, protagonizada pela Rainha que pretende obter o cetro solar (o segredo da maçonaria masculina) na posse do Grão-Mestre Sarastro (símbolo da ordem masculina). O início da obra corresponde a um mundo de desordem: o negro Monostatos, o Corvo, está entre os puros enquanto Pamina, a Pomba, está entre os vís.

No decorrer da obra, caminho iniciático, Pamina é raptada ao mundo da noite, num dia de Primavera (esperança), de um jardim de ciprestes (referência à morte). A sua tentativa de fuga ao poder de Sarastro termina num jardim de palmeiras (referência à ressurreição).

Por conseguinte, há dois caminhos iniciáticos paralelos: o de Tamino, iniciação tradicional, e Pamina, semi-iniciação (de adoção). É notável a pista que nos é dada, provando esta interpretação, quando os amantes se submetem juntos às provas do Fogo e da Água.

Nesse contexto, a obra termina precisamente com a chegada de uma idade de ouro, uma nova ordem, em que Tamino e Pamina se casam, representando o seu casamento um nivelamento ritual e uma vitória da ordem sobre o caos(...).